Uma psicóloga que não gosta de café
- Gabriella Gasafe

- há 6 dias
- 2 min de leitura
Existe uma imagem muito conhecida da psicóloga. Uma poltrona confortável. Um livro aberto. Uma chuva lá fora. E, quase sempre, uma xícara de café.
Confesso que, às vezes, sinto que sou a única psicóloga que não recebeu esse manual. O livro? Gosto muito. A chuva? Perfeita. Mas o café? Eu não gosto de café. Nunca gostei.
E por mais bobo que isso pareça, durante muito tempo senti que havia algo de errado comigo por isso. Como se eu estivesse deixando de cumprir um pequeno requisito para ocupar esse lugar. Afinal, se todo psicólogo toma café... por que eu não?
É curioso como transformamos costumes em critérios de pertencimento... Viramos pequenos pedacinhos de argila, se moldando e remoldando para encaixar em lugares que nem sabemos muito bem o que é.
Como você já pode ter percebido, esse texto não é sobre café. É sobre a sensação de estar sempre um passo distante daquilo que parece ser esperado de nós. É sobre olhar para os lados e perceber que todo mundo parece representar um papel com tanta naturalidade, enquanto nós nos perguntamos, em silêncio, se também deveríamos ser diferentes.
A verdade é que passamos boa parte da vida tentando caber em imagens que não fomos nós que criamos.
O profissional ideal.
A mulher ideal.
A filha ideal.
O corpo ideal.
A personalidade ideal.
Vivemos tentando decorar um roteiro que nem foi escrito em uma língua que dominamos.
E isso dói. Dói porque, na tentativa de nos aproximarmos do que "deveríamos ser", acabamos nos afastando de quem realmente somos.
A verdade é que você nunca vai ser quem deveria ser. Não porque lhe falte esforço, mas porque o "deveria" nunca foi um lugar de chegada. Ele é uma régua que muda de tamanho toda vez que você se aproxima.
Talvez a pergunta aqui não seja "como eu faço para me tornar quem eu deveria ser?", mas sim "quem eu teria sido se tivesse passado menos tempo tentando corresponder aos deverias e mais tempo conhecendo quem eu já era?"
Vou terminar esse texto compartilhando uma frase que, há muito tempo, mora comigo. Se você me conhece, talvez saiba que Nietzsche ocupa um lugar especial na minha estante - e na minha vida.
"Torna-te quem tu és."
Por mais curta e simples que seja, ela sempre me faz parar por alguns instantes. E talvez faça sentido para você também.
Gabriella Gasafe,
Uma psicóloga que gosta de chás e coca zero.



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