A terapia raramente começa na primeira sessão
- Gabriella Gasafe

- há 6 dias
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Percebo na clínica que muitos elementos atravessam o momento da decisão de procurar a terapia. Às vezes, é o encontro com um limite. O limite do cansaço, da raiva, da dor, do desamparo, da desesperança. É o momento do "algo precisa ser mudado agora".
Outras vezes, é a fala de alguém. Um amigo, um familiar, um companheiro, talvez até um completo estranho. Curiosamente, às vezes precisamos que o outro nos diga algo sobre nós para que possamos, enfim, nos perceber. Não porque o outro nos conheça melhor, mas porque empresta palavras ao que ainda não conseguimos nomear.
Também existem as decisões silenciosas. Aquelas que amadurecem devagar.
Já ouvi, algumas vezes, pessoas que tinham meu contato salvo há semanas. Às vezes, meses. A ideia da terapia já existia muito antes da mensagem ser enviada. Foi uma decisão pensada, adiada, retomada, ponderada inúmeras vezes até encontrar algo.
E então chega o primeiro encontro.
Com ele, chegam também muitas dúvidas. Como será essa psicóloga? O que ela vai perguntar? Vou precisar contar tudo de novo? Reviver tudo? Redoer tudo? Será que eu aguento? E se eu chorar? E se eu travar? Por quanto tempo farei isso? Será que isso realmente funciona?
Essas perguntas eu gosto de responder - ou pelo menos tentar.
Gosto da ideia de jogar limpo com quem está diante de mim. Não vejo a terapia como um espaço de onisciência, onde eu já conheço o final da história e conduzo alguém até uma conclusão que enxerguei muito antes. Não acredito nisso.
Construímos juntos.
Eu não sei mais sobre você do que você mesmo. Aceito essa posição com tranquilidade. Posso perceber e sentir coisas diferentes. Podemos discordar. Posso oferecer outras formas de olhar. Mas caminho lado a lado, não alguns passos à frente.
Costumo dizer o que estou pensando. Conto como suas palavras chegarem até mim, quais sentidos despertaram, quais perguntas fizeram nascer. A terapia, para mim, é muito mais um diálogo do que um jogo de adivinhação.
Talvez o começo da terapia seja isso. Um paciente que chega sem saber quem encontrará e uma psicóloga que abre a porta sem saber quem está prestes a conhecer. Entre os dois, existem expectativas, receios, curiosidades e algumas fantasias.
Mas existe, principalmente, a possibilidade de um encontro. E, para mim, é ali que a terapia começa.
Gabriella Gasafe,
Uma psicóloga encantada por primeiros encontros.



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