Sobre fantasias e devaneios
- Gabriella Gasafe

- há 6 dias
- 2 min de leitura
Outro dia, percebi uma mania curiosa. Às vezes, enquanto observo alguém passar na rua, começo a imaginar pequenos detalhes da sua vida. Qual será sua fruta favorita. Se tem um gato ou cachorro em casa e, se tiver, de que raça ele é. Qual foi a viagem que mais gostou. Se prefere acordar cedo ou dormir até tarde. Que nomes daria aos filhos, caso quisesse tê-los.
São histórias construídas a partir de quase nada. E, curiosamente também, não sinto vontade de descobrir se estão certas. Acho bonito que existam apenas em mim.
Percebi que fazemos isso o tempo todo.
Quando vemos um casal andando de mãos dadas, imaginamos como se conheceram. Quando encontramos alguém calado, inventamos razões do seu silêncio. Quando alguém sorri muito, supomos que leva uma vida leve. Quando alguém é sério, concluímos que talvez seja difícil ou distante.
Nossa imaginação completa os espaços que a realidade ainda não preencheu.
Nem sempre essas histórias são injustas. Nem sempre são verdadeiras. Elas são, antes de tudo, tentativas de dar sentido ao desconhecido.
Na clínica, isso também acontece. Meus pacientes criam imagens sobre mim antes mesmo de me conhecerem. Imaginam como sou, o que penso, do que gosto, o que desaprovo. Eu também começo a conhecê-los antes que me contem toda a sua história. Não porque suponha quem são, mas porque suas palavras, seus gestos e seus silêncios despertam impressões que vão sendo revistas a cada encontro.
Com o tempo, muitas dessas histórias caem por terra. Outras permanecem. Não vejo problema nisso.
Conhecer alguém nunca significou eliminar todos os mistérios. Há sempre uma parte do outro que continuará sendo apenas imaginada, e talvez seja justamente isso que mantém viva a curiosidade, o respeito e o encanto pelos encontros humanos.
Gosto de pensar que ninguém cabe completamente na história que contamos sobre ele.
Ainda bem.
Porque isso significa que sempre existe espaço para sermos surpreendidos.
Gabriella Gasafe,
Uma colecionadora de histórias



Comentários