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Sobre palavras

  • Foto do escritor: Gabriella Gasafe
    Gabriella Gasafe
  • há 6 dias
  • 2 min de leitura

Há palavras que fazem meu trabalho desacelerar. Elas aparecem no meio de uma narrativa, quase despercebidas, e me convidam a permanecer ali por mais um instante.


"Estou angustiado."


"Foi um trauma."


"Sinto muita culpa."


"Tenho medo."


Essas palavras, por si só, me dizem muito pouco. Ou melhor: dizem muito sobre a nossa língua, sobre a nossa cultura, sobre as formas que encontramos para nomear a experiência. Mas ainda não dizem quase nada sobre aquela pessoa que está sentada à minha frente.


Porque a minha tristeza não é igual a sua. O meu luto não nasceu no mesmo lugar que o seu. A minha raiva ferve por motivos diferentes. A minha angústia ocupa outros espaços.


É por isso que, quando uma palavra me chama atenção, costumo voltar até ela. Pergunto o que significa. Como ela é. Onde mora. Como chegou. Às vezes pergunto como essa tristeza aparece no corpo. Outras vezes, como a pessoa sabe que aquilo é culpa e não vergonha. Qual a diferença, para ela, entre culpa e responsabilidade. Ou o que faz com que ela chame essa experiência de ansiedade, e não de medo.


E quase sempre me surpreendo. Já ouvi significados tão diferentes para uma mesma palavra que, hoje, desconfio um pouco das definições prontas.


Vivemos em uma sociedade que precisa nomear. E penso que isso é importante. Dar nome às experiências nos ajuda a compartilhá-las, compreendê-las e, muitas vezes, buscar ajuda.


Mas existe uma pergunta que me interessa ainda mais. Não apenas o que é. Mas como é.


Como é essa tristeza?


Como é essa saudade?


Como é esse vazio?


Como é acordar sendo você dentro dessa experiência?


Talvez seja aí que a terapia encontre uma de suas maiores riquezas.


Não na busca por encaixar alguém dentro de uma definição, mas na disposição de descobrir o significado singular que aquela palavra ganhou ao longo da sua história.


Porque as palavras podem até ser as mesmas. Mas a experiência de habitá-las nunca é.




Gabriella Gasafe,

Uma pessoa que se não tivesse se encontrado na Psicologia, provavelmente teria feito Letras.

 
 
 

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